Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Turismo Cultural: do Porto da Raiva até à Figueira

Projecto concorre em competições ao nível nacional e internacional
Parque envolve 70 quilómetros ao longo do

Mondego

 

Do Porto da Raiva, passando por Coimbra e até à Figueira da Foz, o projecto do Parque Patrimonial do Mondego quer transformar o turismo cultural do país num espaço de dois ou três anos. Numa experiência inédita em Portugal, o objectivo é «fazer renascer um território em decadência», avança o arquitecto coordenador do projecto, Nuno Martins

 

Diário de Coimbra (DC) – O que é o Parque Patrimonial do Mondego?

Nuno Martins (NM) – É um projecto de revalorização e revitalização da paisagem cultural do rio Mondego, a qual resulta do uso do rio e das margens ao longo de séculos. E isso inclui o material e o imaterial: os edifícios, o património ambiental e ecológico, as tradições, a arte, a dança, a música...

DC – Para o cidadão como é que o parque vai funcionar?

NM – Qualquer pessoa do mundo pode aceder à nossa página na Internet e ver quais são os recursos patrimoniais em presença. Depois, pode entrar num diálogo com o parque através de um guia inteligente, que lhe permitirá apresentar um conjunto de preferências de temas e percursos ou até gostos gastronómicos. Consoante essas opções, receberá uma sugestão de um ou vários roteiros, também de acordo com o tempo que prevê para a sua estadia. No que vamos tentar ir um pouco mais além é na tentativa de dar apoio permanente através de GPS ou PDA, de modo a que a pessoa possa, a qualquer altura da sua visita, receber e enviar informação para uma central capaz, por exemplo, de actualizar sugestões de roteiros e de actividades ou mesmo de fornecer propostas de restaurantes consoante as preferências e a localização do próprio visitante. Queremos acima de tudo que o parque seja uma estrutura dinâmica de lazer e de cultura.

DC – De que património estamos a falar?

NM – Estamos a falar, por exemplo, de todo aquele comércio que durante séculos era feito no rio Mondego utilizando a barca serrana e que acontecia no sentido do Porto da Raiva para Coimbra e Figueira da Foz, trazendo produtos da região de Penacova e das Beiras, como o azeite, a lenha e a carqueja, que servia na altura como acendalha e era também utilizada para fins culinários. Da Figueira da Foz para nascente ia, por exemplo, peixe no sal. Nos dois sentidos, havia também o transporte de roupa, que era tratada pelas lavadeiras, que residiam em aldeias à volta da cidade, e que depois era trazida de volta e descarregada num cais da cidade, junto ao parque ou junto à Estação Nova, para ser entregue aos seus destinatários. Havia outras actividades ligadas ao rio, nomeadamente o próprio transporte de pessoas até à chegada do comboio em finais do século XIX.

DC – E como é que se pode recuperar esse património?

NM – O parque pode ser a plataforma mais adequada para agregar todas essas histórias – até porque o rio funciona como fio condutor destas narrativas – e todas as possibilidades que existem de as contar, quer seja através de criação de roteiros temáticos que integrem os vestígios que ficaram desta acção humana sobre o território, quer pela disseminação, por exemplo, de centros de interpretação para os visitantes.

DC – Qual o estado dos recursos ao longo dos 70 quilómetros de extensão do parque?

NM – Nalguns casos os recursos patrimoniais que identificámos não estão ainda sequer classificados como tal. Por exemplo, entre Coimbra e Penacova existem muitos edifícios de antigas quintas com uma arquitectura tradicional e que não só não estão classificados como património, como nalguns casos estão abandonados, semi-abandonados ou sub-utilizados. E são pontos que podem ter muito interesse se vierem a constituir um roteiro temático ou se forem reutilizados pensando nas populações e nos visitantes, quer para o turismo rural, quer para albergarem associações culturais locais.

DC – Para além de centros de interpretação, o que contempla o projecto?

NM – É suposto que possa haver um grande centro de visitantes que poderia ser uma figura que se fala há algum tempo em Coimbra, o Museu do Mondego, onde se reuniria todo o espólio ligado ao uso do rio e das suas margens.

DC – Onde seria?

NM – Pensámos num edifício secular que existe no nó das Lajes e que terá sido inicialmente um convento. Já no século XX veio a ser uma fábrica de confecções. Pelo que sabemos, está completamente abandonado. É um edifício que tem uma certa dignidade e que tem uma localização muito favorável pela sua acessibilidade e proximidade ao rio e a pontos de grande concentração de bens patrimoniais e culturais. Por outro lado, está também muito perto de uma paisagem rural que ainda resiste junto à cidade.

 

DC – Um projecto desta envergadura requer a acção concertada de várias entidades e também das autarquias. Já foi feito algum contacto?

NM – Em primeiro lugar, estamos a apostar na consolidação e promoção do trabalho, nomeadamente através da participação em concursos (um promovido pela Universidade de Aveiro e outro que é um dos mais importantes prémios internacionais dirigidos ao turismo sustentável, o “The Sustainable Development in Tourism Prize”). Ainda não tivemos nenhuma reunião oficial, mas já foram dirigidos pedidos, nomeadamente a entidades ligadas à cultura e ao turismo.

DC – Às autarquias não?

NM – Não, mas é a próxima etapa, porque o projecto tem um carácter intermunicipal e terá de contar não só com a aprovação, mas com o apoio concreto de autarquias e de instituições ligadas à cultura e ao ambiente.

DC – De que investimento global é que estaríamos a falar?

NM – É difícil quantificar o investimento global, porque estamos a falar de vários projectos, com diferentes fases e prioridades.

DC – E qual seria a prioridade?

NM – Um roteiro como o da barca serrana era o ideal para resgatar todas aquelas actividades em extinção, porque permitiria realmente fazer uma viagem no tempo a essa história, desde que se recuperassem e consolidassem as margens, se garantisse a navegabilidade do rio em todos os seus troços e se recuperasse alguns cais e portos. Depois seria necessário o centro de interpretação dos transportes fluviais e o Museu do Mondego.

DC – Então, para esse primeiro projecto poderíamos pensar em que valores?

NM – Não está nada ainda orçamentado.

DC – Se o processo fluísse, quando poderia estar pronto o parque, ou pelo menos esta primeira fase?

NM – Dois ou três anos seriam o suficiente para pôr de pé o grande esqueleto do parque patrimonial, que é os roteiros. Claro que criar a oferta diversificada, a programação, poderá levar mais tempo, porque passa pelo trabalho de muitas entidades.

DC – Que vantagens o parque poderá trazer às populações?

NM – Tem a grande mais-valia de poder fazer renascer um território em decadência. É sobretudo um projecto de elevação da auto-estima das populações residentes e de afirmação de uma identidade regional. Por outro lado, quando se atrai um milhão de pessoas para um sítio, isso tem repercussões económicas muito importantes e sugere a criação de empregos e de investimento, porque é preciso edificar infra-estruturas de apoio.

DC - Pela sua dimensão e múltiplas valências, não estamos perante um projecto utópico? Afinal, estamos a falar de um lote alargado de entidades, desde o próprio governo, autarquias, agentes culturais...

NM -  Já foi feito noutros países. O turismo é hoje em dia a maior indústria do mundo em termos de pessoas, empregos e volume de negócios, se excluirmos a do armamento. E a Portugal, que no contexto europeu não é relevante nas áreas industriais ou agrícola, está reservado um papel importante nesta área do turismo cultural. Por outro lado, a exequibilidade do projecto advém de ele se alicerçar na cultura e nos recursos locais, não forçar investimentos em novas infra-estruturas (propõe a recuperação e a reutilização) e ser financiável pela União Europeia, pois assenta em vectores estratégicos das políticas comunitárias: o ambiente e o turismo sustentável.  

 

IN  Diário de Coimbra

Segunda-feira, 29 de Outubro 2007

 

 

 

posted by penacovaonline às 12:53
link | comentar | favorito

Veja mais

Para ver mais registos deste blogue pode clicar no link dos meses anteriores ( ARQUIVO ) na barra lateral.

Ficha Técnica:

Webmaster : David Almeida Contacto: cyber.org@sapo.pt

Outubro 2010

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


Registos Recentes

Penacova Online continua ...

Penacova online regressa ...

Penacova Online regressa ...

...

Travanca: Dia da Freguesi...

Travanca do Mondego assin...

Soares Marques ( 1919-201...

Paulo Cunha: escritor pe...

Agenda 21 Local: um proje...

Feriado Municipal evocou ...

17 de Julho: Feriado Muni...

Concurso “Achas que sabes...

União de Chelo promove No...

Confraria da Lampreia de ...

Festas do Município arran...

Etiquetas

actualidade

autarquicas09

blogosfera

bombeiros

desporto

feriado municipal

festitradições

frontal

futebol

igreja

karate

lampreia

lorvão

miro

nova esperança

penacova

penacova a mexer

politica

s. pedro de alva

travanca

todas as tags

Arquivo

Outubro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

pesquisar