Quarta-feira, 14 de Abril de 2010

De Penacova a Covas do Monte…

 

No blogue ZETOVARINHO http://zetovar1.blogspot.com/ podemos ler (registo de 26 de Março) um artigo intitulado A Escola, a Aldeia, a Rede e o Pensamento Estratégico”.

 

Escrito  pelo Prof. Vitor Andrade, conhecido especialmente das gentes de Lorvão, este artigo apresenta um conjunto de reflexões interessantes sobre a sua experiência de trabalho nas comunidades rurais.  Pode aceder ao citado blogue para ler o texto integral. No entanto, deixamos aqui alguns excertos  que poderão servir para a nossa reflexão e serem o ponto de partida para algumas dinâmicas locais.

 

Penacova: a Escola e o Desenvolvimento Local

O início deste percurso reporta-se à minha entrada no ICE (Instituto das Comunidades Educativas) em 1996, em Penacova, no projecto Escolas Rurais.

Entrei na perspectiva de tentar perceber como as coisas se organizavam à minha volta e nos espaços que ia ocupando – na escola onde desenvolvia o meu trabalho e nas reuniões inter-equipas onde tentava perceber o que era o ICE - foi uma fase de aprendizagem muito intensa, porque estava a viver coisas novas, realidades e perspectivas que me questionavam.

A primeira questão orientadora pode formular-se deste modo: pode a Escola educar/desenvolver a comunidade? Ou, mais especificamente, a Escola, enquanto estrutura exterior – vista como Sistema Educativo / enformada pelo exterior, isto é, por uma política de educação que é Nacional, não enformada pela comunidade local - pode desenvolver essa comunidade? (…) De facto, a Escola não se pode considerar completamente exterior ao local, à comunidade...no entanto os processos são enformados pelas directivas centrais e não pelas redes de relações e significados locais. O professor que personaliza a escola no local, é organizado por uma estrutura central, não pelas relações locais A ESCOLA ao tocar as pessoas não é nula, provoca mudança na comunidade em que se insere...mas não se trata de uma dinâmica de desenvolvimento daquele espaço, não se trata de um processo de “Desenvolvimento Local”. Na minha concepção, o “Desenvolvimento Local” é mais a dinâmica das pessoas, das suas relações dentro do espaço e do modo como essas relações se organizam a partir da forma como interpretam o exterior. Como é que se pode alterar a situação? Como é que a Escola pode trabalhar o meio, pode não investir na formação do aluno mas mexer com a comunidade? Pode a escola ter, como campo de acção, a própria a aldeia? Desde cedo percebi que tinha de sair da escola e criar uma rede à sua volta que influenciasse a sua estrutura, o que não é fácil. Os processos de aculturação da relação Escola/Comunidade têm sido no sentido desta preparar os seus membros para actuarem na sociedade em geral e não a pensarem-se e pensar o local onde vivem. É criada a ideia que todos podemos fazer muitas coisas num local que não conhecemos ou simplesmente conhecemos intermediados. Nesta perspectiva o saber está desligado da acção. Para alterar isto a minha ideia seria fazer algo que não fosse escolar e centrado aí, convidar a escola a participar. Tentar um processo em sentido contrário, da comunidade para a escola. Desenvolver caminhos que conduzissem a Escola a processos de auto-questionamento, de aprendizagem.

A Feira de Artes e Cultura em Lorvão

O que poderia ser mobilizador de uma identidade local? Memórias, desejos, afectos? A estratégia encontrada traduziu-se na organização da Feira de Artes e Cultura, onde moleiros, paliteiros e todos os que estão ou estiveram ligados à construção da identidade de Penacova podiam estar e participar com estatuto de igualdade em relação à escola. A Feira de Artes e Cultura, desenvolveu-se como espaço de mostra e auto reflexão que permitiu à comunidade local reconstituir a sua própria imagem, a forma como se vê... como chegaram ali e como se podiam imaginar a partir dali? Fez-se a Feira, no princípio virada para dentro. O que é que havia? Houve um esforço de escuta, de inter-conhecimento. As pessoas falavam da cultura como se já não existisse, como se fosse memórias. O interessante era como dar a essa memória, um novo sentido, um sentido de futuro? Assim, começámos a convidar pessoas do exterior de forma a quem estava no local se revisse com os olhos de quem vem de fora. É este, tal como vejo, o fio condutor do Desenvolvimento Local: o que o local pensa do exterior é o que permite organizar o local - sem o exterior, o local organiza-se num relação de fechamento sobre si próprio.

Covas do Monte : a aldeia e o desenvolvimento local

Foi já com a bagagem do aprendido em Penacova que “parti” para Covas do Monte, uma aldeia onde já não havia escola. (…) Em Covas do Monte, um primeiro momento organizativo deu-se em torno do lagar: eu ouvia histórias do lagar, memórias e gostos... então porque não reconstituir o lagar? Para as pessoas da aldeia, a ideia do Lagar não tinha um valor objectivo, apenas afectivo. Mas quando pessoas de fora chegaram e começaram a ajudar a reconstituir o lagar, elas vieram dar um novo sentido à sua reconstrução – passou a ser uma realidade presente, algo que tinha valor, não era já apenas uma memória do passado transformou-se num valor simbólico da aldeia. Assim, toda a escuta e posterior conversa, foi um processo de eco-organização. Uma reorganização que veio dar novos sentidos às memórias, aos patrimónios culturais, dando-lhe um significado, um valor, um futuro.

Estratégia fundamental: conseguir alimentar redes. Eu não sou apenas o que sou, nem o que sei, sou também um conjunto de relações. Salto de um campo mais institucional, para as redes: não me envolvo apenas eu , mas tudo o que está ligado a mim, e este é também o meu processo de desenvolvimento. Compreender isto foi um salto na intervenção: em Penacova não tinha, ou não tinha consciência, desta rede de conhecimentos, nem redes de organizações que me permitiram, aqui em Covas do Monte, mobilizar públicos...

(…)O que se tem de meter no mercado é o processo que leva a esse produto – ao adquirir o produto, o público vai adquirir todo um processo cultural e isso tem outro valor: esse processo não existe for do local, para usufruir temos de ir ao Local, o processo é intransmissível. É no processo que está a cultura e a identidade das coisas e isto é o que me leva a ir ao Local e não adquirir numa prateleira de um supermercado.

Em Covas do Monte o processo passou por fazer das colheitas um momento atractivo para a aldeia. Como é que aquilo que fazem por necessidade, por trabalho, pode ser para outros, para o públicos que vêm do exterior, lazer de tal forma que pagam para participar?

Outra estratégia passou por transformar o trabalho de pastoreio num percurso pedestre... o trabalho do pastor passa a ser uma mais valia em função da captação de públicos.

Voltando a Penacova…

Voltando a Penacova, dou um exemplo que ilustra bem este conceito. Ao procurar valores para animar a Feira de Artes e Culturas, puseram-me em contacto com uma senhora que faz artesanato de madeira que se usa no fabrico dos palitos: objectos artísticos, facas, moinhos. Esta senhora e a sua filha produzem estes objectos numa garagem, à porta fechada. Ora, eu sei que o maior valor do artesanato não é a peça, é o processo... estas artesãs estão a roubar o maior valor ao artesanato, ao trabalhar fechadas na garagem... porque o que está aqui é culturalmente o modelo da fábrica: apenas interessa o produto acabado que se coloca no mercado. Fazem peça a peça e só vendem a peça. Porque é que a associação local não passa a ser um espaço onde se faz artesanato, de forma que públicos exteriores possam assistir ao processo de fabrico? Por uma alteração da organização cultural o acto escondido de fabrico de artesanato passa a ser exposto, tornando-se num recurso de desenvolvimento da aldeia pela sua captação de público. O público tem de aí se deslocar, pois só aí poderá usufruir daquele bem que é o processo. Com pessoas lá podem surgir todo um conjunto de outras actividades económicas.

Isto é válido na aldeia ou no bairro da cidade... se criarem uma estrutura de identidade criam sustentabilidade, se descaracterizarem e passarem a organizar-se apenas para servir e servirem-se do exterior esvaziam-se. Historicamente sempre assim foi, os pequenos espaços são estruturas de diversidade e de complementaridade. (…)

posted by penacovaonline às 19:19
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1 comentário:
De Heliana Rodrigues da Costa a 19 de Abril de 2010 às 14:50
Interessantíssimo esse artigo, onde mostra-se a importância da identidade, processo cultural, o abrir portas para conhecimento de toda a genialidade artesanal e captar público. Chave para sucesso e crescimento.
Muito inteligente e salutar. Parabéns ao professor Vitor Andrade.


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